Reportagem sobre Paulo Stuart Wright

Reportagem de Luis Fernando Assunção, publicada na edição do Jornal A Notícia, de Joinville, em 1º de julho de 2003

Pela palavra de Cristo, revolução!

“…Diante de tanta injustiça e miséria que vemos no mundo e da opressão generalizada aos necessitados, proclamar-se inocente é inconcebível para quem buscar servir a Cristo. Querer ser inocente é aceitar as regras da injustiça, é aceitar passivamente a opressão, é não ter feito nada pelos que sofrem. Creio que é impossível ser cristão e não ser subversivo da ordem vigente, de ser fiel a quem trata de derrubar toda a autoridade, como nos fala São Paulo.”
(Trecho de carta escrita por Paulo Wright à esposa Edi, 1970)

De sólida formação religiosa e intelectual, ex-deputado estadual PauloWright abriu mão de tudo para lutar por liberdade

Era mais um dos tantos encontros perigosos naqueles terríveis anos de repressão. De codinome Pedro João Tim, Paulo Stuart Wright saiu de uma das casas onde se escondia alguns dias por semana no centro de São Paulo e seguiu em direção à Estação da Luz ao encontro de dois companheiros. Em seguida, entraram no trem em direção a Santo André. O amigo baixinho e o amigo estudante perceberam que estavam sendo seguidos e pediram que Paulo disfarçasse. Com a blusa de frio no braço, deixou cair no chão o jornal inseparável, deu uma olhadela pela volta e compartilhou a mesma sensação: estavam sendo seguidos. Decidiram descer do trem. O baixinho primeiro, o estudante depois e Paulo por último. Depois disso, o catarinense Paulo Stuart Wright não foi mais visto com vida. Preso, torturado e assassinado, seu corpo até hoje não foi localizado.

Paulo Stuart Wright, filho de pastor presbiteriano, nasceu em Herval, distrito de Joaçaba em 2 de junho de 1933. Sexto filho de um casal de missionários que desenvolvia um trabalho religioso na região do Vale do Rio do Peixe, Paulo cresceu rodeado por forte controle paterno contrabalaçado com uma educação sensível da mãe. Ouvia diariamente histórias que dona Bella lia, em inglês, antes de dormir. O reverendo Wright atribuía obrigações severas a todos os filhos: ajudar nas tarefas de casa, cortar lenha, cuidar da pequena roça, ajudar no fabrico do suco de uva, aprender ofício e seguir os ensinamentos da Bíblia.

Com nove anos, Paulo vivenciou a sua primeira grande perda: dois de seus irmãos morreram afogados no rio do Peixe. Conheceu então a coragem da mãe, o sofrimento resignado do pai e o medo de nadar. Passado o choque, Paulo passou a fazer visitas com os pais a residências, ouvindo seus problemas e levando conforto às famílias. Concluiu o primário e foi estudar em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Jogava basquete, vôlei e futebol. Acabou se apaixonando por uma paranaense chamada Edimar Rickli, com quem casou, mais tarde. Ele já concluíra o científico e se preparava para estudar nos Estados Unidos, costume entre os filhos de missionários da igreja Presbiteriana. A família e a mulher cultivavam as palavras de justiça e honestidade de Paulo mas não entendiam muito aquela mania de sempre visitar orfanatos e asilos, conversar e brincar com crianças sem família e idosos desamparados.

Até o pai o censurava, porque sempre doava seus próprios sapatos a quem mais precisasse. A mulher, Edi, sabia que atitudes como essa de Paulo em breve trariam problemas muito mais sérios. E assim se deu. Paulo retornou de estudos nos Estados Unidos cheio de novas idéias e velhas certezas: o seu lugar era onde pudesse ficar ombro a ombro com injustiçados e daqueles que buscassem transformação. Casou no final de 1956, em Curitiba. Com a morte da mãe, voltaram para Joaçaba, onde Paulo empregou-se de torneiro mecânico e em pouco tempo fundou o sindicato dos metalúrgicos.

Filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e aceitou, aos 25 anos de idade, candidatar-se a vereador. Não foi eleito. O casal mudou-se para São Paulo, onde Paulo ampliava suas atividades políticas e religiosas. Em 1960, a família voltou para Joaçaba, onde Paulo se candidatou a prefeito da cidade. Tinha 27 anos e uma popularidade em alta. Teve 4.276 votos contra o candidato da UDN, que fez 4.284.

A decepção o empurrou para Florianópolis, como diretor da Imprensa Oficial do Estado. Foi eleito em 1962 deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP). Ligado a movimentos populares e operários, Paulo defendeu esses interesses enquanto esteve na Assembléia. Seus discursos no plenário incomodavam até mesmo a membros da mesa. Começava a pressão por sua renúncia. Os suplentes reagiam: “Ele tem idéias comunistas.” Era final de 1963 e Paulo elaborava um projeto para organizar cooperativas de pescadores no Estado.

Com o golpe, Paulo teve seu mandato cassado. Acuado, perseguido, ele deixou o País. Seguiu para Cuba, via México. Voltou ao Brasil um ano depois e começou a militar nos movimentos revolucionários. Ingressou na Ação Popular (AL), onde atuou por oito anos na clandestinidade. Chegou a ser expulso da igreja Presbiteriana – atitude revista pela igreja depois dos anos de ditadura. Nos primeiros dias de 1973, num dos anos mais sangrentos da repressão, se viu preso logo depois de descer do trem em direção a Mauá. Levado ao DOI/Codi de São Paulo, foi morto sob tortura nas primeiras 48 horas do cativeiro. Sua blusa de frio foi encontrada no chão da sala de interrogatórios. Até hoje a família carrega a angústia de não ter encontrado seus restos mortais.

Nome

Paulo Stuart Wright

Nascimento

1933, em Herval, Joaçaba

Profissão

Sociólogo

Militância

Ação Popular (AP)

Desaparecido desde 1973

“O que fica dele é o espírito público e o desapego”

Curitiba – João Paulo Wright, analista de sistemas, 40 anos, olha para o nada para definir a personalidade do pai: persistente e idealista. Casado, pai de duas filhas, ele ainda carrega na família as marcas da intolerância. Por muitos anos foi chamado na rua de “filho do terrorista” e até seus filhos acabaram discriminados pela atuação política do avô. João Paulo era pequeno quando o pai vivia na clandestinidade, mas lembra com segurança de alguns momentos de visitas escondidas à casa da mãe, em Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba. “Os encontros eram sempre tensos, rápidos, na casa de amigos ou em lugares desertos”, recorda.

João Paulo ainda era uma criança. Mas ouvia atento diálogos entre o pai e a mãe. Como o travado em uma das visitas quando Paulo relatava a morte de uma general da ditadura. “Pensava: mas o que meu pai quer com essa luta? Não entendia sua vontade de abrir mão de tudo em busca de seus ideais”, conta João Paulo, que viu o pai pela última vez aos oito anos de idade. “Uma cena que ficou na minha cabeça foi um encontro entre o pai e um sindicalista de Joinville, em um parque de Curitiba. O sindicalista tinha uma adoração pelo pai e chegou no local de guarda-chuva, apesar do sol. Era para não ser reconhecido”, recorda.

As marcas da militância do pai estão em toda a casa onde mora, num bairro de classe média de Curitiba. No álbum de fotografia, no nome do filho mais novo – Paul Stuart Wright -, na educação dos outros filhos, Francis e Bianca, e até no velho piano que enfeita a sala e que foi dado por Paulo a Edi como presente de casamento. Mas o que mais ficou foi o preconceito. “Minha mãe sempre disse para a gente esconder a condição do pai. A questão de colocar medo nas pessoas, naquela época, era presente”, diz.

O desapego do pai às questões materiais e sua força em lutar contra as injustiças norteou sua educação e a dos filhos. “Ele tinha uma formação intelectual muito sólida, um espírito público e desapego. Não podia ver ninguém na pior que corria para ajudar”, garante. Paulo jamais utilizou o salário de deputado estadual para despesas em casa. “Ele achava isso imoral”, conta João Paulo. “A gente sofreu e sofre muito com isso até hoje. Foi uma grande perda para o País e só agora isso começa a ser divulgado”, conclui João Paulo que, ao contrário do pai, não seguiu a carreira política. (LFA)

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