A procissão das almas

Uma homenagem aos mortos pelo seu dia

 

Derlei Catarina De Luca

Ela era uma mulher bonita. Tinha a pele de pêssego e o cabelo sedoso. Atraia os olhares com suas saias godê, farfalhantes e plissadas. Foi princesa em baile de carnaval e seu nome aparecia até em verso.

Devota, dedicava-se a oração e aos terços diários. Dirigia a meninada da Cruzada Eucarística, ensaiando cantos, preparando rezas, verificando as fitas amarelas, se estavam em bom estado e devidamente passadas. Vigiava as conversas na hora da missa e tentava evitar as risadas àtoa que as crianças inventam de ter, na hora das liturgias.

Era uma moça romântica também. Sonhava seus sonhos, acordada. Sentava na varanda ao lado da casa, cruzava as pernas e punha-se a sonhar. O pensamento viajava na amplidão do espaço. Sonhava com amores possíveis e impossíveis.

Durante a semana atendia os fregueses na loja, ajudava a mãe nos afazeres da casa, frequentava as reuniões das Filhas de Maria onde ocupou cargos de direção. Agregava as meninas mais novas ao seu redor e era comum, nos domingos à tarde, ouvi-la contar histórias passadas e outras esquisitas que excitavam a imaginação.

A melhor de todas as histórias era a procissão das almas. Nas noites de 1º de novembro, a meia noite, ela via a procissão das almas passar pelas ruas de Içara. As almas passavam em procissão, com velas acesas, como se penitenciando de algum pecado. Ela identificava as almas, conversava com elas, ouvia seus clamores.

No dia de finados, o ponto de encontro de todos os içarenses era o cemitério. Depois de arrumar as flôres nos túmulos, andar pelos corredores, cumprimentar os vivos e olhar as fotos dos mortos, era a hora de ouví-la contar da procissão.

Nina Fermo, Sônia De Luca, Madalena Cardoso, eu, e muitas outras meninas gostávamos de ouví-la e eu me perguntava por que só ela via a procissão. Sentia a maior curiosidade de ver, mas nunca tive o privilégio de conseguir.

Durante a ditadura militar, sua forma de ajudar era rezando. Rezava pelos presos e pelos foragidos. Dedicava um terço diário pela minha vida. Foi sua forma de ajudar.

 

 
 
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