Movimentos e entidades internacionais assinam manifesto pela criação da Casa da Memória em antigo centro de tortura de Porto Alegre

IMG_2419 IMG_2420 Presença do Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça em Porto Alegre levando a solidariedade na luta pelo Centro de Memória e a Moção aprovada pela ALESC por proposição do deputado Dirceu Drech.
Mesa formada por dois ex-presos políticos | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Mesa formada por dois ex-presos políticos | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sempre alguém sumido de casa
Torturado, morto,
Mutilado pelo Estado ao bel-prazer
Boiando no Rio da Prata
Guerrilheiros, jornalistas,
Marinheiros, padres e bebês
Boiando no Rio da Prata
Visto num jazigo vago
Ou num muro de Santiago
Ou jogado numa vala comum
Fernanda Canofre
Nei Lisboa cantou esses versos para o irmão mais velho quando completou 29 invernos sem ouvir Ico. O irmão, Luiz Eurico Tejera Lisboa, integrante da União Gaúcha dos Estudantes Secundaristas, mais tarde guerrilheiro da Aliança Nacional Libertadora (ALN), desapareceu em São Paulo em 1972. Ico virou alvo de vigilância da ditadura militar quando tentou ressuscitar o Grêmio estudantil do Colégio Júlio de Castilhos, o Julinho. Quando entrou para a guerrilha, já estava na mira. Levaria ainda sete anos para que sua viúva Suzana pudesse localizar seu corpo em Perús, no interior de São Paulo, na vala comum junto a mais de 140 ossadas sem nome. Ico foi um dos primeiros “desaparecidos” do regime a ser encontrado. No Congresso Nacional, enquanto o Brasil entrava nos primeiros dias de Anistia parcial, Suzana rompia em denúncia na tribuna: “Achei meu marido! Está aqui!”.
Trinta e quatro anos depois do corpo de Ico ter sido reconhecido – enquanto dezenas de ossadas de Perús ainda aguardavam a identificação -, teve início a campanha para transformar o casarão antigo da Rua Santo Antônio, número 600, no bairro Independência, antiga sede do Dopinha, num espaço de memória, verdade e justiça. O local escondeu o primeiro centro clandestino de tortura do Brasil, o primeiro centro clandestino de desaparecidos da América Latina. Em dezembro de 2013, sobreviventes, familiares, ativistas, gente que só ouviu a história décadas depois, se reuniram no quintal da casa para transformar o espaço de violações em terreno de memória. O nome de Ico Lisboa foi o escolhido para batizar o Centro de Memória.
Agora, quase dois anos depois, a luta pela criação do espaço ganhou reforço de 70 movimentos e entidades do Rio Grande do Sul, outros estados brasileiros e de fora do país, todos assinando uma Carta Pública pela criação do Centro de Memória. Entre os signatários estão grupos como as Mães e Avós da Plaza de Mayo, da Argentina, o Museu da Memória (MUME), do Uruguai, Museu da Memória e dos Direitos Humanos, do Chile e o Grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. A Carta foi lida e apresentada nesta quinta-feira (23), no auditório do Memorial do Rio Grande do Sul. Mas a criação do Centro esbarra na burocracia de governos.
A casa onde funcionou o chamado Dopinha está à venda por cerca de R$ 2 milhões de reais e os donos esperam movimentação do poder público para fechar negócio. Em 2013, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, e o então governador Tarso Genro (PT), assinaram um convênio definindo que o município pagaria metade do imóvel e o estado arcaria com o restante. Apesar do acordo, quase não existiram avanços desde então. Para o deputado estadual Pedro Ruas (PSol), que participa das negociações desde o princípio, agora é hora de “ir além”. “A prefeitura deveria apresentar o projeto de desapropriação do imóvel. E temos de forçar para que o governo federal também ajude”, disse.
 

Cartografia do passado
No evento, um audiovisual percorreu a cartografia de 49 lugares em Porto Alegre que serviram como centros de violações aos direitos humanos. Lugares onde a vida durante e depois do fim da ditadura seguiu sem que ninguém lembre ou fale do que esconderam. Lugares óbvios como quartéis, outros onde as violações ainda seguem nos dias atuais, como o caso do Presídio Central, e alguns que pareciam fora de qualquer suspeita, como a Catedral Metropolitana, mas que calou e escondeu o espancamento de um grupo de presos com autorização do bispo.
“Esse novo mapeamento mostra teia, trama organizacional, quase um crochê de coisas, que estavam debaixo dos nossos narizes. Aqui havia uma grande estrutura para exercer a violência”, afirmou o músico e ex-preso político Rui Ellwanger, um dos organizadores da luta pelo Centro. Ellwanger não caiu no Dopinha, mas passou boa parte da vida ouvindo relatos de companheiros sem a mesma sorte. Um deles, preso por engano, passou apenas uma noite nas mãos dos seviciadores. Foi o suficiente para mudar toda sua vida.
A própria esposa de Ellwanger foi tratada pessoalmente por Paulo Malhães e Pedro Seelig. “É importantíssimo, todos os fatos, mobilizações, sítios de memória que estejam sempre colocando essa lembrança para as novas gerações. Isso que vai garantir que hoje não se reproduzam não só os golpes militares, mas também essa violência comum que vemos”.
Ellwanger lembrou ainda que quando o Dopinha foi criado, em 1966, não havia Ato Institucional nº 5, a máquina da tortura estava engrenando com apenas dois anos de regime, mas militares sabiam como operar ilegalmente dentro da ilegalidade. “É muito importante porque é ali que estão os fatos transformados em pedra”, defendeu ele.
Foi dentro da casa amarela que o Rio Grande do Sul assistiu um de seus mais tristes eventos: o caso das “mãos amarradas”. O sargento Manoel Raimundo Soares, um dos líderes do movimento de militares legalistas – que queriam a volta de João Goulart -, foi pego fazendo campanha contra o governo nas ruas. Manoel passou por sessões de tortura no Dopinha, foi levado à Ilha do Presídio e voltou ao centro clandestino onde morreu. Seu corpo acabou sendo despachado no Delta do Rio Jacuí, onde iam tantos descartes dos militares. Dias depois, ia ser encontrado boiando no Guaíba, com as mãos amarradas para trás. O caso do sargento se tornou um dos mais emblemáticos das ações da ditadura aqui. Aconteceu na casa que servia também de escola de torturadores. Dois oficiais que serviram no Dopinha, logo foram levados para a Casa da Morte, em Petrópolis.
O cartunista Latuff fez desenho lembrando o passado da casa no 600 |

O cartunista Latuff fez desenho lembrando o passado da casa no 600 |
Sociedade cúmplice
“Precisa saber que está em um local de cárcere, que o vizinho era torturador. Não existe ex-torturador, ele é e sempre será”. Assim definiu Ivan Seixas, ex-preso político, um dos membros da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e atualmente coordenador do Programa Memória e Verdade, da secretaria da república. Ivan tinha 16 anos quando foi preso junto ao pai, um operário comunista, e levado ao DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social). Só sairia da cadeia e da tortura seis anos depois.

Ivan Seixas compartilhou suas experiências com o Museu da Resistência em São Paulo | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Ivan Seixas compartilhou suas experiências com o Museu da Resistência em São Paulo | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Ivan participou do processo de criação do Memorial da Resistência em São Paulo, construído sobre o que sobrou do DEOPS, onde ficou preso na mesma cela na qual esteve Monteiro Lobato (preso por Getúlio por protestos na campanha “O Petróleo é nosso”). No evento em Porto Alegre, ele contou que o projeto inicial do governo de Mário Covas (PSDB) foi “higienizar” todo o local, pintando paredes e apagando qualquer vestígio de quem viveu naquele lugar, sob o nome de “Memorial da Liberdade”. O grupo de familiares e amigos de presos e desaparecidos insistiu que o nome fosse trocado e recuperou os espaços para recriar os ambientes das celas como eram. Atualmente, o Memorial da Resistência é o único museu do gênero no Brasil.
“Eu acho que essa luta é fundamental porque vai contar uma história que muita gente quer esquecer. Não por ser triste, mas porque é a história vergonhosa deles. Nós assumimos nossa história com orgulho, eles não. Fogem como ratos”, declarou Ivan. “A gente tem uma tarefa muito difícil que é desconstruir a ditadura. Ainda temos Polícias Militares submetidas ao poder do Exército. A P2 – polícia secreta da polícia militar – tem de se reportar ao Exército”.
Esse sistema, montado com o objetivo de garantir “a segurança nacional e o plano de desenvolvimento econômico nacional”, resistiu além da ditadura que o criou. A cultura do “ranço do inimigo interno” se manteve e fica claro na criminalização de movimentos sociais e na forma de abordagem da maioria dos policiais com civis.
“Esse é o grande capital que a gente tem que tirar, para que não deixem voltar. Não é para que nunca mais aconteça, é para que não aconteça hoje”, afirmou. Ivan Seixas criticou ainda a Lei da Anistia, que há anos, movimentos ligados à memória e justiça tentam trazer para o debate. “A sociedade é cúmplice por não permitir que se julgue os torturadores, só assim para mostrar que o Estado de Direito não aceita morte, tortura, repressão, sequestros”.
No ano passado, às voltas dos 50 anos do Golpe militar, o site Resistência em Arquivo  entrevistou o músico Nei Lisboa sobre a canção “E a revolução, meu irmão?” e o irmão Ico, que inspirou o trabalho. “Falar do meu amor pelo Eurico, é falar das suas ideologias. Falar da dor maior que é a perda de entes queridos, dessa geração que padeceu na carne a ditadura. (…) Eles lutaram para que hoje o mundo pudesse se encaminhar para um caminho mais justo e igualitário”, declarou Nei.
No livro  que compilou algumas de suas poesias, em um julho do inverno de 1968, Ico escreve em carta para a esposa Suzana. “Eles não compreendem, Suzana, que nós somos um momento na luta que o Homem vem enfrentando através da História, cada vez mais conscientemente, pela felicidade”.
Mais de 50 anos depois do golpe militar, quase 43 anos depois do desaparecimento de Ico, a ditadura perdeu. Nei e Ico ainda conversam sobre o mesmo mundo.
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