“Dói gostar do outros”     

           Dor inegável nos causa o falecimento de camaradas que combateram a ditadura e sobreviveram e continuaram defendendo objetivos mantidos nos duros momentos da resistência. Cito pelo menos três nomes desses camaradas mortos: César Teles, Inês Etienne e meu saudoso amigo Antônio Losada, tio da inesquecível Sevilha Losada, que um dia trouxe a Goiás o som e a força dos ventos do Rio Grande do Sul.

            Mas hoje o que quero, mesmo, é mandar meu abraço à Amelinha Teles, companheira do César, que morreu recentemente e mais recentemente foi homenageado por pessoas que testemunharam a sua história. Esse casal eu conheço bem. E muita gente conhece, no Brasil e no exterior. Quando ele cumpria pena na cela 3 do Presídio da Justiça Militar Federal de São Paulo, ela já havia deixado a cadeia e se recuperava das torturas sofridas no DOI-Codi comandado pelo verdugo Carlos Alberto Brilhante Ustra.

            Amelinha, Celeste, Esther, Raquel, Cristina, Terezinha, Dodora, Jôsi, Lenira, Elô e inúmeras outras companheiras carregavam nas costas, tanto quanto os próprios presos políticos, o peso dos ferros do presídio e a truculência da ditadura militar. E o faziam com dignidade, consciência, compromisso, coragem e atitudes que mitigavam as nossas feridas e asseguravam a nossa sobrevivência.

            Além de tudo, Amelinha e César eram a mãe e o pai de duas crianças tão queridas como se fossem filhas de todos os indivíduos confinados naquele estabelecimento maldito. Afinal, elas também foram levadas ao DOI-Codi para conhecer os horrores impostos pela tirania dos generais que governavam o país.

            Janaína e Edson Luiz estiveram na sala de torturas em que César e Amelinha sofriam os martírios daquele tempo de trevas. Ambas as crianças viram e sofreram o que a humanidade não deveria permitir no limite das suas fronteiras. Quando saiu dali, Janaína escreveu um poema, concluindo que “dói gostar dos outros”, dos outros que sofrem aquilo que ela presenciou.

            Esse poema chegou às mãos de um jornalista na Itália, que o traduziu, divulgou e comentou, provocando emoções e, sobretudo, solidariedade aos presos políticos do Brasil. E, então, eu escrevi em um poema: “Janaína menina – versos na língua degolando o ego dos energúmenos”.

            Estou certo de que, com suas ações e seu exemplo, César Augusto Teles muito contribuiu para a construção de um mundo em que gostar dos outros será motivo de prazer e alegria.

Pinheiro Salles
é presidente da Comissão da Verdade, Memória e Justiça do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás

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