Como se repara uma vida sem futuro? (por Cristina Pozzobon)

Publicado em: abril 5, 201700

Enquanto o Brasil esteve sob o regime militar imposto pelo golpe de 64, muitas pessoas ficaram alheias ao que estava acontecendo. Outras, fecharam os olhos para não ver e levaram suas vidas na mais absoluta normalidade. Parte delas, talvez por medo, outra parte, por ignorância. Mas havia aquelas que queriam o golpe, que foram para as ruas e pediram a intervenção militar. Essas pessoas, convictas, apoiaram um regime que confiscou a liberdade do povo brasileiro, assassinou, torturou e forçou o desaparecimento de homens, mulheres, adolescentes e crianças por resistirem a um governo tirano.

Em 1985, 21 anos depois, o regime militar chegou ao fim e estávamos certos que não haveria mais possibilidade de golpes. Tínhamos tudo para seguir em frente. Teceríamos um grande agasalho para aquecer todas e todos os brasileiros. Buscaríamos justiça e seríamos solidários. Distribuiríamos a renda, a terra, o pão e o conhecimento.

Ah, mas quando um povo não conhece sua história está sujeito a repetir seus erros!

Trinta e um anos depois da redemocratização do país, a história se repete, mas não da mesma forma. Os “convictos”, que autorizaram os assassinatos cometidos pelo estado brasileiro, aperfeiçoaram suas estratégias e tramaram um golpe muito mais sofisticado contra o povo. Em 1964, o parlamento foi fechado. Em 2016, o golpe veio de dentro do parlamento. Deputados e senadores, na sua grande maioria com processos e investigações nas costas, vestiram o verde e o amarelo e se proclamaram guardiões da moralidade. Destituíram uma presidenta eleita legitimamente e rasgaram a Constituição de 1988.

Os dois golpes têm muita coisa em comum, em especial duas.

A primeira é o apoio da mídia hegemônica. Globo, Band, Record, Veja, Folha, Estadão, entre outros, fazem a grande propaganda do projeto neoliberal. Vendem a ideia de que o estado mínimo trará menor custo à população, mas não dizem que reduzirá a assistência ao povo, subtrairá direitos conquistados, rasgará cláusulas pétreas da Constituição. Cumprem um papel determinante na legitimação dos golpes.

No filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, lançado no Brasil em setembro de 2016, a metáfora do cupim diz muito. Um empreiteiro compra um prédio antigo, à beira-mar, em Recife, Pernambuco. Ávido para aumentar seus lucros, decide derrubá-lo para construir algo mais rentável e encontra Clara (Sônia Braga), última moradora do edifício. Ela não abre mão de ficar no lugar que escolheu viver. Por resistir, sofre agressões, intimidação e tortura. Faz de tudo para tirá-la. O cupim de solo, plantado no prédio, vai com voracidade, sem ser visto, comendo tudo o que encontra pela frente. Quando nos damos conta, só temos a casca da madeira e das estruturas. Tudo já está comprometido. Para este empreiteiro nada importa. Direitos, histórias, vidas, emoções. Ele tem acordo com os cupins, que só engordam. Não gostam da luz, não se mostram, não querem ser vistos. A luz os mata.

Esses cupins – banqueiros, rentistas, deputados, senadores, defensores do neoliberalismo – vão deixar o Brasil só na casca. Vazio de riquezas, tecnologias, pesquisa, história. Esse é o produto final do neoliberalismo. A renda, a terra e o pão e, principalmente, o conhecimento estarão reservados às “pessoas de bem”, aos eleitos por “merecimento”. Aos demais, resta o trabalho sem direitos, sem garantias, sem futuro.

A segunda coisa que os dois golpes têm em comum é a truculência do estado. De novo, prisões arbitrárias e violações de direitos. Novamente, os governos impõem um regime de exceção ao povo, sem direito à livre manifestação. Cerram as portas do parlamento, impedindo a entrada das pessoas e tratam os movimentos com violência e intimidação. Atacam brutalmente a integridade física e psicológica de estudantes, professoras e professores e trabalhadoras e trabalhadores de um modo geral. Agridem e desprezam a democracia.

Porém, todo governo tirano tem seu contrário. E desta vez, o golpe não encontrou o respaldo esperado. Já havíamos experimentado o Prouni, as cotas para negros e indígenas, o Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa Família, O Luz Para Todos, o aumento real do Salário Mínimo, entre outros programas que beneficiaram o povo brasileiro, a maioria da população de baixa renda. Criamos as leis de proteção às mulheres, a Lei do Feminicídio. Já havíamos descoberto o pré-sal e o seu significado para o futuro de gerações e gerações de brasileiras e brasileiros. A resistência está nas ruas, nas ocupações das escolas e universidades, nos sindicatos e nos movimentos sociais que se organizam para defender o que foi conquistado.

Os setores conservadores vieram para acabar com tudo. São os cupins de Aquarius. A cada ato, e na calada da noite, vão destruindo a base do que se construiu. Querem levar o país ao caos para justificar seus projetos de privatização dos serviços, a venda de nossas estatais e das nossas riquezas.

E tudo acontece diante dos olhos do Judiciário e do Ministério Público, que fazem as vezes dos que não querem ver e, coniventes, se calam diante do arbítrio e do abuso de poder.

Depois do golpe de 64 nos perguntamos:

Como se repara uma vida ceifada sob a tortura do estado?
Como se repara a violência e a privação da liberdade?
Como se repara a dor de uma família que não enterrou seu ente querido?
Como se repara o medo?

Depois de agosto de 2016 nos perguntamos:
Como se repara uma vida sem futuro?

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