Arno Preis

Arno Preis: a história de um militante assassinado em terras tocantinenses

Arno Preis

Arno Preis, um catarinense poliglota, filho de Paulina Back e Edmundo Preis, foi uma das pessoas que, para lutar contra a ditadura instalada no Brasil em 1964, se viu impelido a adotar o meio que no momento, considerou o melhor para a defesa dos ideais de um Brasil mais justo: a luta armada.

Filho de descendentes de alemães, teve uma educação rígida, tendo estudado durante boa parte da infância e adolescência em seminários católicos. Mas desistiu da batina meses antes da ordenação, para seguir a faculdade de direito, em São Paulo. Além de ter facilidade nos estudos, aprendia rapidamente a falar outros idiomas. Traduziu três livros do japonês para o português: Kamikaze, Cruz Vermelha e Iwo Jima.

Profundo conhecedor da cultura popular brasileira, dominava instrumentos musicais, em especial a flauta. Arno também tinha grande capacidade de dialogar para solucionar impasses, e era conhecido como alguém extremamente dinâmico. Seu sonho: prestar concurso para o Itamaraty e ser diplomata.

Com o golpe, Arno como tanto outros, decidiu que aceitar a imposição da ditadura não era uma opção, num país tão injusto e marcado pela desigualdade. Deixando sua noiva, sua família e seu sonho de seguir a carreira da diplomacia, integrou a ALN (Ação Libertadora Nacional) e depois o que viria a se tornar o MOLIPO (Movimento de Libertação Popular) – ambas tinham como uma de suas intenções organizar no país uma guerrilha rural que pudesse combater a ditadura então vigente. Fichado na Polícia Federal e no DOPS, procurado como “terrorista”, Arno, como outros companheiros da esquerda, passou a viver como um clandestino.

Rumo ao Norte
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Já na clandestinidade, fez diversos treinamentos como militante da ALN, e participou de ações de impacto como o assalto ao trem pagador. Foi para Cuba onde se preparou militarmente para a guerrilha armada, fortalecendo com outros companheiros a ideia do que seria mais tarde o MOLIPO.

De volta ao Brasil, entre 1971 e 1972 foi enviado à região centro-oeste para levar os recursos financeiros da guerrilha rural que pretendia se formar no então estado de Goiás. Sua principal função era articular e tornar possível a organização estrutural do MOLIPO naquela região por muitos considerada inóspita, devido à distância dos grandes centros urbanos. Nesta época, os contatos com a família eram praticamente inexistentes, por motivos de segurança.

Sobre a atuação de Arno no Tocantins, pouca coisa é sabida, uma vez que a desarticulação do MOLIPO foi muito violenta: a maior parte de seus integrantes tinha sido treinada em Cuba, e por isso, eram todos muito visados pela ditadura e deveriam ser sumariamente executados, por serem considerados de alta periculosidade.

A queda e a luta pela memória

Em 15 de fevereiro de 1972, numa noite de carnaval, Arno Preis foi assassinado por agentes do estado, com 18 tiros e perfurações feitas à faca ou baioneta. O policial responsável pelo assassinato, Benedito Luis Paiva, sabia de sua identidade, mas disse ao coveiro do cemitério “enterra de qualquer jeito, isso é um porco”, segundo depoimentos do próprio coveiro. Ainda assim, este por conta própria resolveu colocar uma pirâmide de concreto para marcar o local, imaginando que um dia alguém viria buscar por aquele homem.

Dias depois do enterro totalmente clandestino, sem lavratura de óbito, forte aparato militar permaneceu em Paraíso, ordenando que o cadáver de Arno fosse desenterrado e seu braço fosse amputado, o que foi confirmado posteriormente na exumação.

As circunstâncias da morte não foram esclarecidas, os parentes de Arno não tiveram acesso ao corpo, e também não foram informados sobre o local do sepultamento. Durante anos sua mãe, Paulina, exigia que as ceias de natal fossem feitas com a porta aberta, na esperança da chegada do filho. Muito tempo depois, angustiados e sem notícia, souberam através de um amigo que viu um programa de TV noticiando a “prisão e morte de agente subversivo”. A partir desse momento, começava então outra angústia: a luta pelo direito de enterrar dignamente um ente querido.

Um trabalho dolorido e tenso, encabeçado por Ivo Sooma, advogado e amigo da família de Arno, pôde acabar com a incerteza, apenas no final da década de 80. Viajando pelo estado e colhendo informações, fazendo uma investigação totalmente autônoma, Ivo conseguiu localizar o corpo de Arno. No entanto, ainda sob o regime da ditadura, a exumação e enterro devido dos restos mortais não seria fácil. Apenas após muita luta e ampla mobilização envolvendo pessoas no Distrito Federal, Tocantins e Paraná, finalmente em 15 de outubro de 1993 o corpo de Arno foi exumado, identificado e pode voltar à terra natal, onde com homenagens foi enterrado dignamente por sua família, em 1994. Hoje, uma Rua em Criciúma-SC e um centro de prática jurídica na UNESC levam o nome de Arno Preis, em sua memória.

Uma vida interrompida

O golpe de 64 teve consequências históricas para o Brasil, num contexto político, econômico, cultural, entre tantos outros. Mas saindo da análise ampliada, não podemos esquecer que muitas pessoas, que tinham famílias, sonhos e história tiveram suas vidas modificadas ou interrompidas para sempre.

Arno Preis, que desistiu do seminário na adolescência para seguir o sonho de ser diplomata, falava 12 línguas com fluência, militou no movimento estudantil e tocava flauta, se viu obrigado interromper seus desejos de juventude, apenas por não aceitar a ditadura imposta pelos militares no país.

Depois de brutalmente assassinado, teve sua memória negada e seu corpo violado. Sua família foi durante muitos anos impedida de enterrar e velar seu corpo, e até hoje não tem os esclarecimentos exatos de como se deu o seu assassinato.

É uma ferida que ainda está aberta, mas poucos no Tocantins conhecem esses fatos. Portanto, é necessário que sua história seja divulgada em nosso estado, fortalecendo aqui, onde ele foi perseguido e assassinado, o repúdio à violência, ilegalidades e torturas praticadas pelo estado brasileiro durante a vigência da ditadura militar.
“Prefiro lutar e morrer do que viver em uma situação dessas, onde as liberdades individuais estão esquecidas. Quero continuar lutando para que outras pessoas possam se sentir livres da opressão. Primeiro o sacrifício, depois os sonhos.” (Arno Preis, em 1971)

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Patrícia Barba Malves – Comitê pela Memória, Verdade e Justiça do Tocantins

Referências:

Dias, R. B., & Pavani, E. B. (2011). A luta da família de Arno Preis pela verdade e por reparação: contribuição aos estudos a respeito dos mortos e desaparecidos da ditadura. Esboços-Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC, 18(26), 153-181.

LISBOA, Suzana K. Arno Preis, Comissão Especial, 2004. Disponível em: http://www.torturanuncamais-rj.org.br/MDDetalhes.asp?CodMortosDesaparecidos=108 . Acesso em julho/2013

Textos com informações não publicadas, gentilmente enviados pela professora Derlei Catarina De Luca, militante da causa MVJ e amiga de Arno Preis.

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Da direita para a esquerda: Ivo Sooma, Derlei Catarina De Luca e Enio Linemburg

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